De acordo com o Banco Central do Brasil foram retirados 31,5 bilhões de dólares, ou cerca de 150 bilhões de reais do Brasil, somente nos quatro primeiros meses deste ano. E no agregado dos últimos 12 meses a fuga de capitais soma 49 bilhões de dólares, o que na cotação atual (5R$ = 1US$) equivalem a cerca de astronômicos 250 bilhões de reais. Este resultado é o pior da história, superando a crise de 2008 e derruba a economia do Brasil para patamares do início da década.
A fuga de capitais foi acentuada pela pandemia mas já vinha acontecendo antes pelos resultados fracos gerados pelo governo Jair Bolsonaro e seu ministro da economia Paulo Guedes.
Mas como se não bastasse a pandemia, algo ainda pior começou a se acentuar: um poder judiciário já acoado em suas decisões por twites oriundos de altos escalões das forças armadas e lidos no Jornal Nacional às vésperas de grandes decisões, agora sofrem uma campanha de humilhação por parte de bases radicais de apoiadores da presidência, com ativistas fazendo ameaças diretas à vida de ministros da suprema corte.
Com todas as suas peripécias, o presidente dos EUA Donald Trump que já anunciou a retirada do seu país de diversos organismos e acordos internacionais como a OMS, não costuma fazer ameaças à suprema corte de seu país, muito menos convocando manifestações populares contra a instituição. Isto faz do Brasil um caso único de “Estado em autodestruição”, o que contribui para os sentimentos de insegurança de investidores estrangeiros no país, mas também de investidores e empresários nacionais.
Até aqui na América do Sul encontramos exemplos bem diferentes de respeito às instituições. Entre eles a Argentina que está dando um banho no Brasil, tanto nas praticas de infectologia como na força de suas instituições. A Argentina está com números escandinavos de casos de COVID, números melhores até que o maior país escandinavo que é a Suécia. E lá nenhum militar ousa acoar a suprema corte, visto que a Argentina condenou a prisão perpétua alguns de seus generais envolvidos em tortura e mortes durante a ditadura.
Enquanto o Brasil se dirige para uma marca de 120 mil mortes pelo COVID, um dos maiores do mundo, números proporcionais ao de uma explosão atômica de Hiroshima e Nagasaki, a Argentina vai sair dessa crise como exemplo de habilidade e competência diante de um dos maiores desafios coletivos que a humanidade enfrentou recentemente. Outro exemplo disso é o Uruguai que também está tendo números excelentes.
Estamos vendo com isso o preço da impunidade sobre as maiores autoridades de uma república. No momento, o Brasil é o único país da região a ter um governo formado em peso por militares e, agora, a ter um militar e não um médico cuidando da pasta da saúde durante a pior pandemia da história.
Podemos então com isso mensurar o efeito catastrófico de proporções atômicas da incompetência, indisciplina e indolência dos altos comandos militares e jurídicos do país. Até o Paraguai, que mandou abrir valetas com arames farpados nas fronteiras com o Brasil, conseguiu administrar melhor esta crise. E qualquer um desses países daqui em diante será por vários motivos mais atrativos para investimentos externos de desenvolvimento.
Conseguimos com isso se transformar num gigantesco Paraguai. País cujas instituições serão especializadas em fornecer legitimidade para empreendimentos de modelo quase escravistas e ecocidas pois nenhuma empresa ou empresário desenvolvedor de tecnologias sofisticadas ficará num país onde o poder judiciário é desafiado e desmoralizado pelo próprio presidente da república, e portanto, será incapaz de proteger bens sofisticados e baseados em pesquisas de ponta e propriedades intelectuais.
Estamos transformando o Brasil num paraíso para quem comete crimes e um inferno para quem produz ciência, tecnologia e inovação. Não viraremos uma Venezuela mas sim um imenso Paraguaizão.