Uma das coisas que me faz ter sempre um prazer infindável em refletir e estudar sobre a gameologia é que estou sempre me deparando com pequenas descobertas que implicam em grandes insights que reescrevem a nossa história.
Outro dia aprendi que a famosa tática de como os gregos derrotaram os troianos com um cavalo de madeira, contada no poema épico Odisseia de Homero, chegou até nós por que os perdedores desta batalha teriam fugido para a Itália e fundado Roma, tempos depois.
Guerra acontecida entre os anos de 1260 A.C. e 1180 A.C., iniciada quando o príncipe de Troia, Páris, raptou Helena, a mais bela das esposas do rei Menelau de Esparta. Após anos em guerra, os dois exércitos já haviam perdido os seus principais guerreiros. Pelo lado de Troia, o príncipe Heitor, comandante do exército troiano, e o próprio Páris haviam perecido na luta. Para os gregos, Ájax, o Grande, e o herói mítico Aquiles estavam mortos. Mesmo assim, as batalhas continuavam e Odisseu, com a ajuda da deusa da Sabedoria, Atena, criou a armadilha que daria fim à guerra:
Troia era cercada por grandes muralhas que a protegiam e impediam a entrada dos inimigos. Após a morte de Heitor, os gregos simularam a sua retirada do território troiano fingindo rendição. O exército grego deixou como “presente” para os troianos, que eram conhecidos como domadores de cavalos, um enorme cavalo de madeira como símbolo de “paz”. Mas o cavalo, na verdade, era oco e estava cheio de soldados gregos. Com o fim do cerco, os troianos acreditaram que tinham vencido a guerra e levaram o cavalo para dentro da cidade, onde festejaram longamente. Durante a noite, quando todos dormiam em Troia, os soldados gregos saíram do cavalo e atacaram a cidade. O resto do exército que estava escondido na Ilha de Tenedos se juntou ao grupo de soldados para finalizar o saque. Mas o rei Enéas, de Tróia, teria conseguido escapar e seus descendentes teriam fundado posteriormente a cidade de Roma.
Há controvérsias se o lendário Cavalo de Tróia realmente existiu, ou se os descendentes desta batalha histórica realmente fundaram Roma. Mas é fato que esta tática, enquanto ideia, realmente existe e foi aperfeiçoada pelos romanos e seus descendentes chegando até os dias de hoje de uma forma muito bem camuflada.
Séculos depois da guerra de Tróia, os romanos dominaram a Grécia. E em seguida, dominaram todos os povos mediterrâneos e quase toda a Europa, incluindo o que hoje representa toda a península ibérica, França e parte da Grã-Bretanha, alcançando uma população total de mais de 50 milhões de habitantes em seu auge.
Mas como uma única cidade consegue estruturar um império desta escala de tamanho estando ainda na era do bronze?
O Império Romano forçava os soldados derrotados e escravizados a construir amfiteatros (estádios) onde aconteciam corridas de cavalos e lutas de gladiadores, onde os cidadãos das províncias dominados podiam até mesmo apostar e assistir aos espetáculos, que naqueles tempos, somente os romanos sabiam promover, custeando a máquina de dominação de seus próprios opressores em troca de algumas horas de entretenimento efêmero, mas também, intensos e inesquecíveis.
Então os romanos usavam a brutocracia para conquistar, burocracia para administrar e a ludocracia para governar, pela política do pão e circo, tantos e tantos povos sob o seu sistema econômico e midiático da idade do bronze. Os romanos já sabiam que o cérebro humano é suscetível a se viciar em largas doses de adrenalina e dopamina, e que esta sedução era capaz de ser mais poderosa do que a rejeição à cultura de um exército mais forte e opressor. Pense no que é possível fazer com os métodos de hoje, muitas das estradas abertas e das estruturas erguidas pelos romanos com este modelo de negócios estão de pé até os dias de hoje.
Ainda mais vivo, desenvolvido e vibrante está o sistema econômico e colonial que os romanos desenvolveram, hoje vivos nas formas de competições esportivas, clubes de futebol, circuitos de automobilismo, jokey clubes, e todas as demais artes olímpicas dos esportes.
Este sistema era tão lucrativo que dominou, um a um, todos os povos na redondeza. E por falta de mais povos a conquistar para manutenção dos custos operacionais de sua máquina de guerra, o Império Romano começa a entrar em decadência, abandonando este sistema baseado em entretenimento para a adoção de um sistema baseado na religião, talvez curtindo uma ressaca moral de séculos movidos à vinho, sexo e matança, tornando-se então em Império Católico-Romano onde a figura do imperador acaba substituída pela do Papa. Até que, séculos mais tarde, o Império Romano se transformará no império financeiro dos bancos suíços, com a rebelião de uma ordem de militares formada para a conquista de Jerusalém, conhecida como Ordem dos Templários, que na posse de conhecimentos secretos se torna poderosa demais para as altas hierarquias do Vaticano.
O Nascimento de Uma Nova Elite
Durante toda a Idade Média, a maior parte da população da Europa era analfabeta. Até mesmo reis do nível de Carlos Magno, um dos mais poderosos da Europa de toda a idade média era analfabeto, pois a única classe alfabetizada era a classe dos religiosos. Então assim o antigo império romano que antes se impunha pela força havia se transformado num império sacerdotal que se impunha pelo letramento, cultura, simbolismo, e suas redes de informação baseadas no mecanismo e instituto religioso da confissão. Até que por efeito cruzadas se faz necessário formar um exército de sacerdotes-militares e militares-sacerdotes para capturar e defender o Templo de Salomão do controle dos povos islâmicos. Então, com a criação de um exército de homens fortes e inteligentes o Vaticano acaba criando uma nova elite de militares-filósofos, poliglotas (pois a Suíça tem como idiomas oficiais o alemão, o francês e o italiano), e
exímios estrategistas, e oriundos de todos os países da Europa, que na Suíça se agrupam e se especializam no fornecimento de mercenários para outros reinos da Europa, acumulando segredos militares estratégicos até séculos mais tarde conseguir vencer o Vaticano, alienando-o de seus principais domínios e afastando a participação da Igreja Católica da política através de episódios como a Reforma Anglicana, a Reforma Protestante, a Revolução Francesa, as guerras napoleônicas, a unificação da Itália, a proclamação da República no Brasil (que é o maior país católico-romano do mundo), e por fim, na separação da Igreja Católica do estado italiano, se apropriando
totalmente dos recursos do Banco do Vaticano, herdeiro de terras e tesouros do antigo Império Romano. E ainda termina se tornando fornecedor da proteção militar para o território independente do Vaticano e se vingando simbolicamente por seus antepassados excomungados e cassados pelo Vaticano. Assim, após a segunda guerra mundial a Suíça também se torna a sede da ONU, e de todas as outras instituições internacionais importantes
que conhecemos, e gestora das maiores fortunas e territórios da Europa ocidental e Américas, e respectivos territórios periféricos. De lá ressuscita a missão cosmopolitana e imperial romana, com técnicas e métodos de dominação modernizados, aperfeiçoados, globalizados e normatizados por federações esportivas com sede na Suíça. Os valores capitalistas da competição e meritocracia são assim levados aos quatro cantos do mundo por meio de um entretenimento aparentemente inocente e cativante, especialmente por que dentro dele, mesmo os países pobres também tem chances de vencer, como mostra o caso brasileiro.
Quando um país é eleito anfitrião para um evento esportivo internacional como Copa ou Olimpíadas, assume compromissos com instituições sócias dos maiores bancos e corporações capitalistas do mundo, que garantem plena adesão às normas de todo tipo de natureza, que vão do respeito a direitos de imagem, até aprovação de legislações anti-terrorismo.
Se algum país anfitrião tiver dificuldades financeiras em cumprir com todas estas legislações de segurança, por contratos firmados, os poderosos bancos Suíços terão muito prazer em servir estes países com generosos empréstimos e ótimas condições de pagamento para garantir que todos os mais modernos e sofisticados equipamentos de vigilância serão adquiridos, para a alegria geral do povo, e para não fazer nenhum vexame internacional na festa, é claro.
Passados os festejos, como aconteceu em Tróia, enquanto todos ainda se recuperam da ressaca, vem a etapa do saque.
Com a roubalheira das empreiteiras que realizaram as obras dos estádios, cria-se um caso policial. Com os casos, tiram-se partidos indesejados da disputa eleitoral local. Não estou me referindo apenas ao caso brasileiro. Narrativas similares aconteceram ou ainda estão acontecendo em outros países periféricos como Brasil, Coreia do Sul, Japão e Africa do Sul. Casos de corrupção são descobertos entre as maiores empresas deste país, cujas ações são negociadas nas maiores bolsas de valores do ocidente. Seus desdobramentos criam clima de incertezas sobre o futuro do país. Com medo, os eleitores acabam elegendo candidatos mais conservadores. Quando chegar a hora de pagar aqueles empréstimos, os tempos serão outros e os juros estarão mais altos, então teremos que vender algumas empresas nacionais para pagar, como prega o pensamento conservador dos novos governantes.
Dizia o famoso general chinês Sun Tzu em seu livro milenar que: “na Arte da Guerra, a melhor opção é tomar o país inimigo intacto. Esmagá-lo é apenas a segunda melhor opção.” Já o game designer e consultor de gamificação para as maiores big techs do mundo, Gabe Zickermann, explica que o maior beneficiado de um jogo é o seu criador, pois, “não importa quem vence um jogo, quem ganha sempre é a banca.”
O poder de ludibriar do lúdico é maior que o poder do maior exército. Chamo de Ludocracia, e que significa, do grego Kratos, poder, governo e administração, e do latim, Ludo, que significa jogo. Ou seja, poder ou governo pelo jogo. A Inglaterra, que globalizou o futebol no século XIX, só foi campeã neste jogo uma única vez. Já a Suíça, casa da FIFA, nunca nem foi campeã. Mas quando comparamos o valor da nossa moeda com a desses países, a Libra Esterlina e o Franco Suíço, fica fácil entender o por quê.
É claro que não somos as únicas vítimas desse poder quase hipinótico de sedução do futebol. Mas, no caso brasileiro, é tamanha a nossa influência dessa cultura esportiva na nossa vida política, que se tornou a nossa identidade nacional e a própria camisa da seleção brasileira de futebol foi apropriada pelos movimentos políticos das classes média e alta como símbolo de classe e status. E essas pessoas participaram da nossa vida política recente representando os soldados gregos que saíram do cavalo a noite para realização do saque. Só que do exército imperial da FIFA e seu engenhoso Cavalo de Troia no Brasil, sem nem mesmo imaginar isto.
O Supremo Poder dos Símbolos
Exímios estrategistas financeiros, linguístas e filósofos, os suíços conhecem bem o poder do simbólico como ferramenta metafísica para a administração do mundo físico. Por isso, é possível que a Copa do Mundo seja chamada assim por ser uma referência simbólica ao cálice conhecido por Santo Graal, que os cavaleiros cruzados teriam ido buscar na Terra Santa, e que teria sido o objeto usado por Jesus na Santa Ceia que repetimos simbolicamente aos natais.
Já a jornada dos times de futebol na Copa, uma metáfora de uma cruzada espiritual que, há séculos, teria concedido aos suíços, por sua fé e bravura, o direito de governar quase 80% do mundo de hoje. Na literatura medieval, a procura do Graal representava a tentativa por parte do cavaleiro de alcançar a perfeição. É inquestionável que esta característica esteja presente em muitas inovações que carregam a mesma fama de precisão da origem suíça, como os canivetes, relógios, trens de alta velocidade, e artigos de uso hospitalar.
Passaram-se mais de 3 mil anos desde a invenção da tática do Cavalo de Tróia, e neste período todo é visível que a tática acelerou muito a globalização da civilização, levando ao mundo todo, por meio do jogo, um senso de participação e interface entre diferentes culturas que antes se viam muito mais distantes. Os benefícios que o futebol proporciona com isso também são imensos para o mundo.
Mas passamos a última década inteira em função da Copa. Quatro anos nos preparando e os outros seis revisando as suas contas e cobrando judicialmente e eleitoralmente de empresários e políticos envolvidos. Nosso PIB está terminando a década no mesmo patamar que começou. Nossa moeda perdeu mais da metade do valor. Isto significa que tudo o que fizemos ao longo dos últimos 10 anos foi perdido. Mas se tivermos aprendido sobre a natureza do jogo com esta dura lição, e aplicarmos esse conhecimento daqui para frente, podemos ter saído no lucro com esta experiência com o poder do jogo, e como ele é usado como soft power para exercer controle, sem uso de violẽncia e totalmente dentro da lei, colonizar países pelo mundo, em pleno século XXI. E se o jogo pode ser usado para isso, então também pode ser usado para o desenvolvimento, enriquecimento e independência do nosso país.
Só precisamos desenvolver um jogo melhor, mais útil, mais engenhoso, mais estratégico, e mais divertido que o futebol. E fazer que ele se torne uma cultura popular que possa também ser exportada, levando para fora um pouco da cultura e inteligência brasileira, para assim atrair riquezas e talentos do mundo inteiro como a Suíça faz, e assim promover uma globalização que seja de interesse ao Brasil.
E foi exatamente isso que nós fizemos e demonstramos de dentro do maior e mais caro estádio da Copa, na última e maior Campus Party brasileira antes da pandemia de COVID-19, onde compareceram mais de 100 mil participantes, a maior edição física do evento no mundo, até hoje.
Lá demonstramos que é possível gerar tanto valor numa única partida desse jogo, que se fizéssemos uma partida num estádio lotado poderíamos quase construir outro estádio com os ativos estruturados pela inteligência coletiva durante o tempo de uma partida de futebol. Isto significaria transformarmos nossos estádios em aceleradores de partículas para aceleração de startups, transformando os estádios, que antes eram elefantes brancos, em máquinas de aceleração da economia.
Este ano estaremos nos dedicando inteiramente a tornar este projeto presente em escolas e faculdades de todas as regiões administrativas da capital federal, e depois do resto do país, para que tenhamos jogadores suficientes para, um dia, lotarmos nossos estádios para produzir inovação.
Saiba mais sobre este projeto que se chama Giro #AJogada neste artigo recente.
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