Sobre os aspectos geopolíticos que constroem de fora para dentro a atual situação institucional dos EUA eu já escrevi um artigo recente que explica como o monumental custo operacional do exército americano na economia global de 750 bilhões de dólares ao ano e que está sendo repelido pelas cabeças mais estratégicas da Eurásia. Neste artigo eu pretendo analisar um pouco o fenômeno psicológico pro trás da invasão ao Capitólio nos Estados Unidos e o que ele simboliza sobre o lugar que os EUA ocupam no mundo hoje.

Mas antes, é importante explicar que o poder simbólico do Capitólio casa do parlamento estadunidense e símbolo da força da sua democracia, é o poder de um símbolo que vem impresso na nota do dólar e que é a moeda mais usada no mundo. Então, é o valor desta moeda que representa o tijolo que constrói o seu porte imperial dos Estados Unidos da América. Então, o que acontece com este símbolo, tende a acontecer com o papel que carrega este símbolo pelo mundo.

Não é novidade que a história humana é repleta de frequentes ironias. Mas é de uma extraordinária ironia que a mesma geração que foi fruto de um pico de natalidade registrado nos anos após a volta de soldados americanos, brasileiros e europeus, ao retornar para suas casas de suas missões nos campos de batalha da segunda guerra mundial, hoje seja a geração que governa o mundo enquanto enfrentamos uma pandemia que já matou mais que muitas bombas atômicas em muitos países. Destruindo também muitas empresas e empregos pelo mundo, mas preservando muito bem o capital fixo que na segunda guerra mundial se destruía com bombardeios e tanques de guerra.

Nunca uma geração gozou de tanta paz e prosperidade como a geração baby boomer. Mas a década que precedeu a pandemia que estamos vivendo foi marcada por uma crise semelhante à crise de 1929, que foi a crise de 2008. Quando as economias desenvolvidas do atlântico norte sofreram um choque sistêmico com o estouro de bolhas especulativas devido à especulação imobiliária. O cenário que levou à segunda guerra mundial em 1939, de tensionamento entre potências mundiais para ver como repartiriam a conta da destruição da crise, acabam por destruir novamente a Europa recém destruída pela primeira guerra, sendo o problema resolvido mais uma vez com a matança de pessoas, que por fim, reduz o problema da econômico da pobreza e da fome reduzindo o número de pessoas pela decapitação da demanda.

Com a paz e estabilidade econômica e preços baixos para o custo de vida, vive-se um ciclo de crescimento das famílias e um surto de evolução cultual, e uma época áurea, especialmente nos EUA, mas também no Brasil, com mais de meio século sem guerras mundiais de grandes proporções e crescimento econômico quase contínuo, até a crise de 2008, com apenas um momento de reestruturação por efeito dos choques do petróleo e de uma década de déficits econômicos da balança americana. Sendo assim, mesmo com os choques de petróleo a mudança do padrão ouro para o petro-dolar acabou por criar privilégios super-exorbitantes para esta geração americana de baby boomers que passou a ter sua capacidade de consumo fisicamente desvinculada de sua capacidade de produção.

Mas em 2008 o estouro da bolha traz finalmente a conta deste rombo. Finalmente, os prejuízos desta crise foram sanados com a mesma estratégia de sempre, a matança. Mas pela primeira vez na história, o que vivemos em 2020 se trata de uma guerra não entre nações, mas entre a humanidade e um inimigo em comum, um vírus de baixa letalidade para a maioria das pessoas, mas extremamente perigoso para aquela hiperpopulação que estava causando um peso demasiado grande para os fundos de pensão. Os baby boomers, assim, tiveram que ser decapitados, pelo bem do capitalismo. Mas ironicamente, ao mesmo tempo em que se encontram entre os grupos de risco, os boomers estão também chefiando a administração desta crise. E no caso de muitos países e cidades badaladas pelo mundo, fazendo um péssimo trabalho em interpretar e gerenciar as ameaças desta crise neste momento.

Antes da pandemia, já não faltavam vozes na internet e na mídia especializada em economia acusando a geração baby boomer de terem usufruído de uma abundância material sem responsabilidade e deixado uma dívida astronômica e um passivo previdenciario e ambiental para as próximas gerações.

Mas, ironicamete, o COVID-19 tem um padrão de comportamento que faz mais vítimas justamente nas faixas hetárias dos boomers. Como explicar tamanha coincidência? As respostas vão de teorias da conspiração, a puro e simples lei do ‘karma’. Há quem teorize que como houve uma guerra onde muitos nazistas foram mortos muitos nazistas teriam reencarnado nesta geração e estariam hoje no auge de sua presença na vida econômica e política. Mas talvez algumas noções básicas de economia sejam suficientes para entendermos isto.

Os boomers cresceram em famílias relativamente grandes e em tempos difíceis de dificuldades materiais em decorrência aos anos do pós guerra. Assim, são mais competitivos por natureza e carregam um profundo trauma com a escassez material nas suas infâncias. Ao mesmo tempo, foram educados na guerra fria e detém uma mente mais acostumada a visões binárias de política e governos mais autoritários. No Brasil houve uma prolongada ditadura, mas nos Estados Unidos também houve a era da caça às bruxas do congressista conservador Robert McNamara, que promoveu perseguições e inquéritos inquisitórios sobre suspeitos de colaboração com o regime soviético. Portanto, este clima de guerra contra um inimigo externo foi a realidade durante a construção da personalidade desta geração. Por outro lado, a economia crescia a um ritmo muito maior naquela época oferecendo melhores oportunidades de empregos e em toda a sua vida não tiveram a experiência de vivenciar uma grande depressão como seus pais ou avós viveram na década de 30. Os boomers foram beneficiados por todo este auge da onda de desenvolvimento industrial que aconteceu a partir das inovações tecnológicas desenvolvidas na guerra e integração do Brasil na estrutura industrial do planeta.

E com o fim da guerra fria, esta geração foi ainda mais beneficiada com a pilhagem da união soviética que permitiu à Europa a reunificação e criação da União Europeia integrando às suas economias abundante capital humano e novos mercados clientes. E os Estados Unidos ganharam a mesma coisa em relação à China que passou a ser incorporada às indústrias americanas para aproveitamento de seu enorme capital humano. No entanto, décadas de guerra contra o comunismo levaram à economia americana uma especialização na indústria da guerra e uma necessidade permanente de promoção de intervenções em países menores para manutenção de um setor com empresas cada vez maiores, mais complexas e mais estratégicas.

Como acontecido no império romano e império espanhol, da euforia com a súbita abundancial material que acontece com a invasão de produtos chineses e russos a preços cada vez menores, além de um boom nos preços das commodities recompensando produtores de produtos de baixa complexidade, e punindo os produtores de produtos nacionais de maior complexidade. Isso aumenta o poder econômico e político dos estados do interior dos países americanos, enquanto as grandes cidades se endividam em um padrão de consumo muito acima de suas possibilidades enquanto que ainda promovem guerras no oriente médio e acabam criando o contexto para a crise de 2008, com a farra da especulação imobiliária.

Mas foi quando as redes sociais chegaram às mãos da geração baby boomer pela universalização dos smartphones que esta geração passa a efetivamente protagonizar a vida política do país que até alí ainda era protagonizada por anciões nascidos na geração anterior. Quando em meados da década a geração baby boomer descobre as possibilidades dos aplicativos e das redes sociais que começamos a ver um processo de demência coletiva da nossa civilização se acelerar. Como uma criança que nunca jogou video-game se empolga demais com a liberdade absoluta do mundo digital, a geração baby boomer descobre este universo livre de regras e passa a vocalizar suas frustrações. A geração que nunca havia vivido uma crise em sua juventude ou maturidade, de repente se vê diante de sua primeira grande depressão. E para purgar sua frustração, cai na tentação de usar estas novas tecnologias e de sua aparente ausência de regras para reagir contra aqueles que lhe haviam tomado seu lugar de protagonismo que sempre tiveram na vida. Nos Estados Unidos foram os negros simbolizados pela presidência de Obama. No Brasil, uma mulher que peitava homens poderosos diariamente. Todos que eram no grupo dos aliados na segunda guerra.

Quem nunca lidou com frustrações naturalmente não tem a capacidade de administrar estes sentimentos e como solução termina por tentar impor sua vontade pelo voto, pela fraude ou pela força. Assim acontecem ao longo de 2016 o impeachment de Dilma Rousseff no Brasil, o Brexit no Reino Unido, e a eleição de Donald Trump nos EUA. E agora, da derrota democrática sofrida pelo presidente dos EUA, vemos o seu último espasmo como péssimo jogador e perdedor, numa tentativa patética de derrubar uma democracia pela força.

Não conseguiram isso obviamente, mas o verdadeiro e pior estrago não foi sobre o sistema democrático dos EUA. E sim sobre a imagem que o mundo tinha da democracia americana, com uma invasão de pessoas deslocadas da realidade e vestidas em trajes cômicos e conseguem entrar quase sem resistência dentro das instalações do congresso americano e interromper sua atividade, causando com isso 6 mortos até o momento, causa um grave dano sobre a confiança que o mundo tem sobre o país que fornece a moeda mais usada do planeta. Esta imagem espetacular da incompetência dos Estados Unidos ao passo em que China e Russia ostentam eficiência e extrema capacidade de organização, construindo hospitais em dias e desenvolvendo vacinas em tempo recorde.

Portanto foi a moral para invadir países e trazer a democracia que os EUA agora perdeu. Uma arma importante para projetar seu poder sobre países como Venezuela, Bolívia, Coréia do Norte e Russia. Este capital simbólico que simbolizava a autoridade de serem uma democracia com mais de duzentos anos de tradição e governos que sempre se prosseguiam os ritos protocolares de transição de poder, e teve estes ritos vandalizados e humilhados por um símbolo do poder corporativo americano que é um bilionário e dono de cassinos e show man da televisão. Um verdadeiro herói do sonho americano promovendo um estupro coletivo no templo da democracia, o lugar mais importante politicamente para o país, que é (ou era?) a maior democracia do mundo. Tendo apenas dois partidos, será que algum dia os EUA foram mesmo uma democracia? É esta pergunta que agora o mundo começara a se fazer.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *