As vacinações e a retomada econômica dos países pós-pandemia tem revelado uma situação, curiosamente, complementar e simultânea, de gargalos em cadeias dos mesmos setores de diferentes países. Gargalos muito semelhantes mas que vem acontecendo por motivos diferentes, e uma razão em comum. Essa razão chamamos de cartesianismo financeiro, e é a mentalidade por trás da maioria dos problemas que estamos vivendo hoje no mundo.
Do cartesianismo financeiro saíram os modelos matemáticos que permitiram as criações das teorias econômicas que vieram depois, como a liberal a socialista e a keynesiana, que terminam por compartilhar entre si características que derivam da Matriz Matemática Cartesiana, com a qual calculamos importantes indicadores que comandam nossas vidas como PIB e renda per-capita.
“A invenção das coordenadas cartesianas no século XVII por René Descartes revolucionou a matemática ao fornecer o primeiro elo sistemático entre a geometria euclidiana e a álgebra. Pode-se usar o mesmo princípio para especificar a posição de qualquer ponto no espaço tridimensional por três coordenadas cartesianas.”
A proposição deste sistema racional de pensamento e planificação de funções matemáticas permitiu à humanidade dar um salto de progresso desde a Idade Média que culminou revolução industrial, apoiada também nas teorias de Isaac Newton e Adam Smith, que se basearam no sistema cartesiano de pensamento e planejamento de projetos que viabilizaram grandes avanços na engenharia, e esta, na agricultura e indústria. Portanto, a matemática cartesiana também está presente em todas as teorias econômicas posteriores ao seu trabalho pois está também na epistemologia destas ciências. Vemos o mundo pela lente de Descartes quando olhamos projeções do PIB ou um projeto arquitetônico no AutoCAD. Porém a lente cartesiana sobre a nossa realidade promove também alguns reducionismos e distorções que podem se tornar perigosos, pois deixam enormes pontos cegos ao mesmo tempo em que tornam quem utiliza obcecado em uma única variável a ser maximizada.
Então por meio de sua lente somos tentados a crer, por exemplo, que a vida num lugar onde a renda per capita é mais alta, como São Paulo, e Brasília, é melhor que a vida num lugar com renda per capita mais baixa como Bahia ou Maranhão. Porém esta métrica sozinha vai ocultar quantas horas você vai ficar preso no trânsito e quanto vai pagar pelos serviços de uma babá, podendo trocar esse padrão de vida por custos menores, vivendo perto da praia numa cidade pequena, sem trânsito e morando numa casa maior.
Outro exemplo desse ponto cego é quando colocamos em foco a classe supostamente mais entendida de economia, a classe daqueles investidores da bolsa que aparentam ter muito mais idade do que tem e dormem poucas horas por noite acompanhando os mercados da Asia de madrugada, também conhecidos como day traders. Estes investidores não sabem mas podem estar vivendo sob taxas tão altas de cortisol (hormônio do stress) que podem estrar trocando sua saúde futura por rendimentos que talvez não serão nem capazes de pagar a conta médica. E também não será capaz de comprar a mesma saúde natural quando esta já foi perdida. Estas são apenas duas armadilhas que a Matriz Cartesiana nos induz a cair e que podem nos custar muito caro ao longo dos anos se não praticamos de modo sistemático a reflexão, pois se não ficamos bem atentos, a Matriz Cartesiana vai acabar nos induzindo a crer que os melhores lugares do mundo são aqueles onde mais circula dinheiro, sem informar tão bem do que abrimos mão para alcançarmos o assim chamado “topo”. Sendo assim, onde circula mais dinheiro que a média também, necessariamente, o recurso humano e tudo o mais será mais escasso.
Como efeito macroeconômico cumulativo disso vemos países hiper desenvolvidos como Japão, Suíça e Alemanha enfrentando o problema de taxas de fertilidade decrescentes em suas famílias, pois cada vez mais famílias optam por ter somente um, ou mesmo não ter filhos, porque o preço de criar filhos é proibitivo. O problema é tão sério que os governos tem tentado oferecer auxílios às mães para estimular que tenham mais filhos, mas sem muito sucesso por enquanto. E ao mesmo tempo em que falta mão de obra para serviços básicos, surge nestes países o temor de que em algumas décadas suas populações originais sejam minoria frente às populações imigrantes, causando o fortalecimento de grupos políticos conservadores.
Um caso extremo é o caso do Reino Unido que votou pelo Brexit e sofre hoje com a escassez de caminhoneiros para abastecer os super mercados de suas cidades. Sempre temerosos de passar por algum tipo de falta em sua ilha, os britânicos cuidaram bem de ter dinheiro suficiente para comprar tudo e de deixar “os pobres” de fora. Mas erraram na mão produzindo falta de quem movimentasse essas riquezas pelo país. É que a barrinha do capital humano é obrigatoriamente mais baixa nesses países onde existe muito dinheiro. Onde todo mundo já tem muito dinheiro por fazer trabalhos e serviços sofisticados, faltam pessoas dispostas a fazer o simples e básico. O mesmo vem acontecendo nos Estados Unidos, como efeito de um auxílio emergencial de 1400 dólares e da mudança de opção por empregos em home office de muitos cidadãos americanos.
Já no Brasil não falta mão de obra, mas o problema é falta de combustível a um preço viável para grande parte dos caminhoneiros, motoboys ou motoristas de aplicativo conseguirem trabalhar.
A teoria dos jogos chama isso de Jogo de Soma-Zero.
A moral da história é que não adiantou muita coisa sair da mesa financeira vencedor com mais dinheiro no caixa. Aos americanos e ingleses restou a mesma situação de capacidade ociosa que a nós sul-americanos. Por que o cartesianismo financeiro cegou os mercados a respeito de outras dimensões que a lente cartesiana não consegue mostrar. Faltou entender que país rico não é rico apenas na dimensão financeira. País rico é rico na diversidade e equilíbrio de seu leque de recursos.
Mas a lente 4D da gameologia consegue mostrar isso mostrando que enquanto EUA, Reino Unido e Brasil jogam um Jogo de Soma Zero, perdendo tempo na corrida da retomada econômica tentando ganhar uns dos outros, a China consegue colaborar num jogo Ganha-Ganha com seus aliados e está acelerando sua economia para liderança dos anos 20 desse século. E quem sabe, de todo o século XXI.